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28.4.10

Minha Vida é Feminina – Parte I

Minha vida foi sempre cercada por mulheres inteligentes ou carentes ou espertas ou simplesmente amigas. Não importava se negra, loura, morena ou com seus cabelos brancos, elas estavam lá; por vezes, senti-me como um eleito e abençoado por tudo que eles representavam para a aminha curta existência. E, para minha felicidade, em muitos locais estive e mudou apenas as pessoas porque a importância permanecia. Muitos anos se passaram e ainda consigo lembrar-me delas e, confesso, continuo sentindo muitas saudades delas. Algumas apenas em pensamentos, por terem desencarnados, e outras com lembranças suaves, doces, leves e de muitos rostos e muitos sorrisos.
Interessante um dizer de adolescente “a fila anda”. E comigo o espírito de cigano levou ao pé da letra esse pensamento. Andei de norte a sul, de leste a oeste. E por mais que mudasse de endereço, elas estavam lá e sempre prontas a me acolherem e me darem tanto carinho que me sentia sempre em paz, descansado e protegido.
Passados muitos anos, outras mulheres entraram no meu cotidiano. Uma foi chamego que só o Senhor explica. Paixão mesmo, e foi a tal ponto que muitas noites parei para sofrer, pensar nela e pedir proteção para os futuros nenês. Ah! Como tem pessoas belas e com luzes que jamais se apagaram e por mais que a vida nos afaste as ligações são muito fortes. As outras foram também luzes colocadas no meio do caminho. Estas com características fantasticamente diferentes: uma extrovertida, alegre e de bem com a vida, tirando do sofrimento formas de embelezar a vida com suas percepções de mundo; outra com uma seriedade racional e muito moleque, com cara de criança travessa e decidida; a seguinte, carinhosa, romântica, delicada, preocupada e com muito amor para dar; esta agora uma “maluca beleza”, decidida, simples, humilde e amicíssima; e finalmente a de nariz em pé, apaixonante, severa e com um sorriso magnético e acolhedor.
Enfim, minhas mulheres durante esse percurso foram mães, companheiras, protetoras, aconselhadoras, ríspidas com atitudes tomadas por mim, amigas, irmãs e algumas mais que isso.
E foi colocando no papel uma das formas de me expressar e dizer obrigado porque as amo e amo-as, por me deixarem sempre livres, adoro vocês e muitos beijos, paz e harmonia.

6.4.10

"O TEMPO PASSOU E ME FORMEI EM SOLIDÃO"


 José Antônio Oliveira de Resende
Professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei.

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
  – Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.
E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:
– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... tudo sobre a mesa.
Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também. Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam.... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa.. A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, t ambém ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... até que sumissem no horizonte da noite.
O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
– Vamos marcar uma saída!... – ninguém quer entrar mais.
Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.
Casas trancadas.. Pra que abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite...
 Que saudade do compadre e da comadre!
(P.S. - Não é um texto de minha autoria, mas eu gostaria que o fosse. Parabenizo ao professor e espero estar divulgando o seu trabalho)