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10.6.11

Os desafios de ser professor no século XXI

 (Profº Manoel F. da Silva Filho)
            A Educação sempre foi e sempre será o reflexo de uma sociedade.
            No século passado, a sociedade da modernidade era guiada pela ideologia do progresso e substituiu tudo que era considerado "primitivo" pela hiperracionalidade em busca de uma sociedade perfeita, igualitária e, sobretudo, homogênea. Assim, a racionalidade nivelou as emoções, normatizou o prazer de viver e estar vivendo, explicou o mundo natural e disciplinou a vida social. Contudo, ao domar o ser humano e as suas relações sociais e com a natureza domesticou também os interstícios, impondo a desistência do viver naturalista, onde o ser humano e natureza se completavam. A conseqüência de enfatizar um viver social racional e funcional foi a massificação das individualidades e asfixia do presente.
            Dessa forma, a Educação, legitimou a hiper racionalidade, de tal forma que baniu o senso comum para o que se acreditava ser o nascer de uma "humanidade nova". Para tal, o sua metodologia deveria ser rigorosa, coerente, séria e sem a possibilidade de erros. Ou em outras palavras, ser totalmente cartesiana. E nesse processo todo, o ser humano pode explicar biológica, física, química e ciberneticamente a caducidade dos organismos e o desgaste das maquinarias, mas não foi capaz de resolver o finir. E, a morte foi explicada, mas, ao contrário de domesticá-la, o ser humano só a tornou racionalmente insuportável. Assim, o ser humano se descobriu humano. E, como tal, não é só racional, ele também deseja beber na fonte das crenças sem provas e quer e precisa participar do mito, mesmo estranho e incoerente. O resultado dessa experiência é que ao ser humano lhe foi negado todas as suas esperanças e o futuro a "Deus pertenceria". Enfim, a chamada era da hiper racionalidade tinha se tornado, por assim dizer, uma espécie de buraco negro autofágico. Com isso, o ser humano se vê frente a um dilema e assustado, com sua vitalidade não extinta, contrapõe-se a energia produtivista. E essa nova onda, em um novo tempo, o leva a questão de que as grandes verdades da modernidade não alcançaram os seus objetos de desejo. Agora se trata de um fenômeno mais amplo - é a crise da razão. E, isso leva o ser humano a idéia de unidade implodida e a sentimentos de precariedade.
            No limiar do século XXI, o passo seguinte do ser humano foi inquietar-se e buscar soluções para atender às suas necessidades com novos modelos e perdendo o enrijecimento dos conceitos dogmáticos, experimentando uma nova dinâmica social. Por conseqüência a Educação torna-se mais hesitante e o intelectual vê suas teorias menos unificadas e não deterministas. Isto porque há formação de novos interstícios e com isso há, também, a compreensão de uma fractalidade e de uma fluidez em uma sociedade amorfa que passa a assumir que o saber é incompleto e que o homem está em constante construção. E é nesta intricada rede que o foco sai do macro social, demonstrando assim que o interesse não mais está voltado para os grandes eventos, mas sim, para a banalidade cotidiana. E isso nos remete a observar que a sociedade pode se mostrar, nesse momento, centrada em suas ambições no que tem de melhor e de pior também.
            Assim, pode-se resumir que o ser humano nesse processo transitório, chamado de pós moderno, tem: desejos banais de bebidas populares, ambição de futuro em mínimo momento finito, sabem que não há homogeneidade social e que o bom é deixar para amanhã porque se tem muito tempo para tudo.
            Nesse contexto o início do século XXI também é marcado pela necessidade de mudanças e transformações. E, se isso é necessário, entra a figura do profissional de Educação. O qual, no meu entendimento pessoal, é o único com capacidade de encontrar caminhos e revalorar os processos sociais. Para esse repensar, que se faz urgente, há de se levar em conta que o mundo atual é caracterizado por mudanças constantes e muito velozes, trazendo desafios para o repensar continuo de sua prática.
            Inicia-se de maneira aquecida o plano das idéias e com isso acirra-se um intenso debate, envolvido por uma diversidade de argumentos e de pontos de vista de como ver a interlocução do professor. Mas algumas questões são se fazem expoentes, uma delas é a do professor e sua valorização social.
            Por isso, antes, o professor tem que se repensar e se reestruturar porque seus problemas implicam em um retrocesso aos interesses dos projetos educacionais deste século. Isso porque a sociedade está em reflexão e o professor é parte integrante dela.  E este profissional sabe que a rapidez das mudanças no mundo de hoje é sufocante e ele precisa aprender a lidar com o acúmulo de conhecimentos, devendo estar sempre com um grande desafio: formar e transformar sua prática de forma constante, sem abandonar as produções culturais e históricas da atualidade. E isso sem esquecer o debate de qual é o papel do professor na relação de ensino-aprendizagem.
            O professor do século XXI deve ter raízes profundas no acontecer de um presente dinâmico e no processo de constituição de conhecimentos e valores éticos, morais, estéticos e políticos, emergentes da realização da prática educativa, presencial ou à distância, a partir de interações recorrentes com o meio. Some-se a isso, o contexto hiper midiatizado do presente século, que impõe mais desafios aos educadores.  E neste caso é importantíssimo refutar as visões simplistas que opõem as múltiplas linguagens à realidade escolar e ampliar e inventar ou reinventar a prática educativa, compreendendo a aproximação de três fatores existenciais e marcantes neste século – o tempo, o espaço e a velocidade.
            E, para não esquecer, a responsabilidade pelo processo social não é exclusiva em seus fracassos ao professor, porque em seus sucessos pertence aos políticos oportunistas de plantão, e estes, por vezes, sem dimensões maiores que o observar da sua região central do ventre. Também o é do professor. E isso nos leva a necessidade de se ter uma consciência de que os diferentes setores da sociedade também têm responsabilidades, como, por exemplo,  mobilizar o poder público a promover ações concretas, ou em outras palavras, políticas públicas, tornando-se co-responsável e gestor. Bem como lhes cabe denunciar formas de controle, que utilizem as tecnologias para concentrar poder e conter a criatividade e a inventividade. Um fato histórico é o de que, se muito não se avançou na Educação, isto se deve, principalmente, ao desinteresse de uma maneira ampla, abrangendo todas as siglas partidárias sem distinção, de total falta de querer gerir um educar e de uma sociedade imediatista, individualista, que crê em promessas de palanque, mas que não exige durante o tempo de mandato as suas realizações. E, nesse ponto surge os pensares de Paulo Freire, que estava corretíssimo quando afirmava que não se pode ser apático diante de uma política elitista, conservadora, burguesa e nunca popular e emancipadora. Podendo-se entender por um caminho que existe a necessidade de que os professores sejam estimulados e não castrados, a explorar, as possibilidades de perturbação, transgressão e subversão das identidades existentes. Com isso professores seriam estimulados a buscar o saber no impensado, no arriscado, no inexplorado e no ambíguo, em vez do simplesmente concordar com as idéias, o assegurado, o conhecido e o assentado.
            Para finalizar, uma frase que pode traduzir toda essa inquietação: "Em termos rigorosamente filosóficos, o virtual não se opõem ao real, mas ao atual: virtualidade e atualidade são apenas duas maneiras de ser diferente".