Estou saudosista.
Estive pensando na minha cidade de antes. Lembro-me da efervescente rua Chile com seu comércio movimentado, com loja de departamento, do barbeiro da esquina, dos alfaiates e seus cortes personalizados e das barracas de revistas. Também estou lembrado que o crescimento da cidade do Salvador retirou daquele lugar toda essa movimentação, restando uma tal de revitalização para voltar ao passado. Ledo engano. O que passou ... passou. No máximo uma "up". De qualquer sorte o que era bom pode voltar a ser bom ou até mesmo melhor. Afinal, em nome do progresso se faz milagres, inclusive ressurgir com nova embalagem e rotulando que está melhor que antes. Bom é concreto, luzes e ... e? Falta?
Claro que falta. Falta o calor humano, o renascer de um bom papo na esquina e risadas largas, além do sorvete da Cubana e da bela vista do Elevador Lacerda.
Mas Salvador não é apenas localizado no centro. Então, navegando em direção a uma localidade, antes considerada muito longe, hoje caminho para vários lugares, tomei um grande susto. Estou falando da Avenida Paralela.
Vixe mainha! No princípio, andava de nariz em pé, cheio de orgulho de ser nordestino e acima de tudo ser baiano - tínhamos a maior parte da Mata Atlântica.
Entretanto, como tudo humano, a relação espaço-tempo me faz parar e repensar. Antes Mata Atlântica, depois surgiram as Ocupações Sub Normais - a ocupação dos Pires (homenagem à esposa de um governador que após promessas e ser eleito, por motivos que não me cabe aqui julgar, abandonou o seu posto). Algum tempo depois surge a Alfavile, mais um empreendimento de altíssimo luxo e qualidade tecnológica. Nesse momento foi interessante observar que de um lado o alfavile e do outro o alfavela. A diferença era visível. A alta estrutura tecnológica com a ocupação de muitos metros quadrados contrapondo-se as construções que, à semelhança dos mulçumanos, deixavam pequenos espaços para trânsito e muitas edificações com sobrado. Bem, mais o tempo passou, e hoje vários monumentos ao progresso foram erguidos em nome do próprio progresso da cidade.
Aqui cabe uma pergunta: Por que o progresso humano destroe tanto e não são observadas as suas conseqüências? Essa é uma pergunta com várias respostas e muitos fundamentalistas para explicar. Daí eu prefiro ter saudades. Porque ao cotrário de refazer concreto e redesenhar com luzes multicoloridas, a natureza, quando sofre danos é irreversível. Então vamos lá:
Ai que saudade que tenho de tudo que poderia nos dar felicidade, alegria e coexistência com outras diversas espécies. Ai que saudade que tenho do tempo do vintém e do escambro, onde se vivia com fartura e não com a tortura de uma consciência pesada. Ai que saudade que tenho de ser um simples ser humano integrado a tudo de belo e majestoso. Ai que saudade que tenho do povo na rua gritando pelos seus direitos, respeitando os direitos. Ai que saudade que tenho de uma juventude que discutia Sócrates, Manoel Bandeira, o movimento Hip Hop e o Rock, porque muito se procura melhorar a partir de discussão.
Mais ainda há esperança. Eu acredito na beleza de aprender mesmo com a dureza de sentir na pele todo esse processo de destruição descabida e gananciosa.
Ai Salvador continuo te amando, não pela sua estética desengonçada ou pelas suas belezas, mas porque somos uma cidade negra e de resistência a opressão daqueles cuja beleza não passa de um copo de bebida, olhando o nada como forma de vida.
Um comentário:
Mano, Adooooorei! Parabéns pelo blog de conteúdo profundo. Só quem procura conhecer a alma humana poderá enxergar os símbolos que estão nele contidos. Como já lhe conheço um pouquinho, não fiquei surpresa com as mensagens embutidas no conteúdo. A comunhão de almas fraternas faz com que conheçamos mais a pessoa do que a própria pessoa se conhece. Mais uma vez parabéns! Beijinhos, Dene
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