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27.5.10

A flor da saudade


(Manoel Silva Filho)
    A guerra começou e logo terminou. Desse confronto sobraram escombros. A partir disso é chegada a hora de lamber as próprias feridas e verificar o que sobrou desses escombros.
   Mas, na verdade, os escombros são eu. Perdido e aturdido, sigo meu caminho porque qualquer um me levará a muitos ou lugar nenhum. E isso pouco irá mudar o que passou.
   Nesse momento, sinto-me rasgado e violentado pela tua ausência. É dor profunda, saudade intensa, lembranças que sempre terminaram em lágrimas e sentimentos atormentadores. Queria eu poder ter-me ido em teu lugar porque assim poderia, em forma de energia, estar juntinho dela, amando-a apenas. Mas isso não ocorreu e estou só mesmo que acompanhado. E esse sentimento lascivo que não tem freio é pura saudade, carinho, carência e amor.
   Durante tempos passados a vida me impunha um ritmo violento e alucinante, quase sem possibilidades de viver, sentir ou mesmo respirar. Mas, uma mão divina empurrou no meu cotidiano uma mulher traquina, esperta, alegre, amiga, companheira e extremamente livre. E, por assim ser, idas e vindas eram inevitáveis. Hoje, a comparo a uma bela fera solta nas planícies, liberta e senhora de seu destino.
   Em um último encontro, ainda a sinto aqui e agora, os cabelos presos por um lenço na parte superior da cabeça e os cabelos cheios e cacheados soltos ao redor de seu ombro, ela já se dizia cansada e propôs nos resolvermos. Sorrir, gritei, urrei e me infantilizei em uma mistura de alegria, descrença e agradecimento. Pulei, abracei-a, beijei-a e pude entender assim o dizer manjar dos deuses.
   Rebelde e alegre firmamos nosso compromisso ao pôr do Sol quente de outono. Enfim a felicidade era definitiva e eterna. E, por isso mesmo, sem pressa, sendo solvido cada segundo como se último o fosse. E assim as flores se tornaram mais coloridas, o Sol mais intenso, a Lua mais brilhante, as estrelas aumentaram seu número e o ar foi substituído pela felicidade intensa e incansável.
   Mas o que lhe é dado, também lhe pode ser tirado. Ela tentou afastar-me, rompendo com todo aquele quadro de Da Vinci, perfeito, puro, belo e simples em um quadro de terror extremo, frio, insosso, cinza e confuso.
   Irritado sai e isolei-me. No decorrer de alguns dias voltei e descobri o inevitável, algo que eu não tinha poder de ajudar – câncer. E este se infiltrou pelo corpo dela como pelos sentimentos que nutríamos um com o outro. A separação foi para evitar o sofrimento de ambos. Mas isso foi uma posição unilateral, irracional e não compartilhada. E, por isso mesmo, não aceitável porque o sofrimento não é amparo para o amar e ser amado.
   Os dias correram, a vida continuou e uma rosa foi colocada em um jardim perpétuo em forma de saudade daqueles que realmente puderam amar e ser verdadeiramente amado.
   Até um dia porque o amor nos acompanha pela eternidade quando verdadeiro. E até lá enriqueço-me em tê-la, um dia, um minuto ou mesmo um segundo vivido e amado como nunca foi feito em uma única vida. Axé.

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